7 de abril de 2026, Recife, chuvosa...
Esquentei o almoço. O arroz estava ótimo, o feijão excelente, ambos de ontem. Não tinha carne, preparei omelete com calma. Recife chuvosa nos doa o tempo que nos é roubado diariamente. A desigualdade em tempos de chuva, não rouba o tempo somente, mas as casas, as vias, os empregos, as coisas poucas que permite-se ter pela maioria.
Recife chuvosa nos convida a parar diante da casa outrora vazia, preenchida do eco de nossa ausência e dos ruídos dos gatos quando brincam e quebram coisas, e nos defrontar com a não-diretividade subjetiva enquanto o mundo objetivo irrompe e quer roubar o suposto tempo que se tem.
Eu ponho a mesa, preparo um suco com as mangas de dezembro, limpo o liquidificador quebrado e emendado à fita isolante, como sem medo do relógio, sem brigar comigo mesmo e ainda recebo beijo do meu amor ao lado. Juntos, olhamos a gata nos hiatos, dizemos "parece que ela cresceu", e nem notamos direito o quanto. Somente o fazemos na Recife chuvosa.
Depois do almoço, não vou levar os pratos, guardar a comida, retirar os restos... Vou para minha janela branca de madeira sem vitrais coloridos, da minha casa meio antiga, que digo ser minha, mas é alugada - uma mera forma de possessão ingênua pela palavra que é comum a todo mundo -, me sento, abro o meu piano - quer dizer - retiro a capa protetora contra gatos e poeria barata do meu piano digital que comprei usado de uma mulher que havia desistido do seu sonho, o que diminuiu o custo.
Remexo minhas letras autorais, todas compostas com o violão, e tento, como nas outras raras vezes, tocar sem ter de consertar... e, desconserto, e, na Recife chuvosa, poderia haver tantos erros pudessem e quantos mais concertos fossem possíveis. Recife chuvosa é uma sinfonia, para uns, a mais caótica, para outros, a de alegria, para uns, a mais sombria, para outros, é o melhor dos dias, para uns, um começo trágico, para outros, o trágico enquanto fim.
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