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Um susto estranhado de um estado de calma inexpressivo e deslocado de um sentido discernível

Recife chuvosa. Tarde de quarta-feira. Depois de chegar no trabalho eu choro. Corpo estranho. Não é pressão. Pausa. Não é diabetes. Já era a notícia trágica que viria às onze horas da noite. Morte. Uma confusão se achegou ao meu corpo, uma crise de ansiedade, um quase pânico, por quê? Não se sabia. eu achava que devia-se ao convite para dar aula, ao outro convite para falar sobre autismo,  à mensagem cheia de afeto recebida após um atendimento lindo, ao curso que está para começar, à reunião que consegui agendar, à passagem que deu certo para viajar, às muitas e muitas janelas boas que se abriram e eu me perguntando: será? Medo de tantas coisas ao mesmo tempo, se minha vida sempre foi assim. Ai, de mim! Antes da noite terminar, ainda que com os olhos marejados, o trabalho não tem tempo de parar, há o outro para apoiar, compromissos inadiáveis, ao menos não sob justificativa de uma tristeza - sem tempo parar sermos tristes! Durante o trabalho, de antes de dez da noite e depois, liga...
Postagens recentes

E SE A CHUVA NÃO PARASSE O TEMPO DE CADA UM?

  7 de abril de 2026, Recife, chuvosa...  Esquentei o almoço. O arroz estava ótimo, o feijão excelente, ambos de ontem. Não tinha carne, preparei omelete com calma. Recife chuvosa nos doa o tempo que nos é roubado diariamente. A desigualdade em tempos de chuva, não rouba o tempo somente, mas as casas, as vias, os empregos, as coisas poucas que permite-se ter pela maioria. Recife chuvosa nos convida a parar diante da casa outrora vazia, preenchida do eco de nossa ausência e dos ruídos dos gatos quando brincam e quebram coisas, e nos defrontar com a não-diretividade subjetiva enquanto o mundo objetivo irrompe e quer roubar o suposto tempo que se tem. Eu ponho a mesa, preparo um suco com as mangas de dezembro, limpo o liquidificador quebrado e emendado à fita isolante, como sem medo do relógio, sem brigar comigo mesmo e ainda recebo beijo do meu amor ao lado. Juntos, olhamos a gata nos hiatos, dizemos "parece que ela cresceu", e nem notamos direito o quanto. Somente o fazemos na...

A REVOLTA DE ME VER AINDA PROCURANDO [BATER]* CABER: NO DESEJO FEMININO

 "BATER" foi um ato falho ali! Me tomou uma revolta tamanha: a de perceber que, ainda hoje, me encontro na dinâmica do "caber". É plausível que "bater" me invada ao escrever sobre isso, porque, de fato, existe uma vontade ardente dentro de mim que pede uma ação concreta com força motriz e afeto voraz para afastar? Para me punir? Para tratar com violência do que vem me violentando ao longo dos anos? Talvez, tudo isso e todas as outras formas simbólicas que ainda nem me dou conta na representação dessa palavra. O desejo é mesmo um ímpeto, por vezes irrequieto, nada discreto, mas, por outras, uma raposa, astuta silenciosa que só se põe a sorrir para manifestar-se à vítima já emboscada. Entrei em contato com mais um dilema daqueles que alteram o sentido da vida, o ruma das decisões... É o peso de quando a consciência recai sobre nossas mãos diante dos nossos olhos com odor de constatação! É assim que as águas se dividem, e sendo assim, mais um veio dos meus ta...

NAVALHA

​Navalha de olhos escarlates lâminas afiadas a lábios línguas a léguas e cortes cortam o já dilacerado. Feras não valem o soluço chora-se em troca do pulso… Allan Maykson 15 de março de 2026

Espiritualidade em travessia: notas sobre uma presença desejante, o desapego dos ritos e a angústia de me permitir a experiência da contestação

Cada vez mais sinto que a espiritualidade à qual tenho chegado em meu entendimento precisa cada vez menos de coisas e cada vez mais de uma verdade da presença desejante no exercício espiritual. Vejo-me desapegado das coisas, das velas, das imagens, das guias, dos elementos concretos, do patuá, do congá… É como se tudo, tudo, tudo pudesse ser realizado e acessado pela mente. É claro que os elementos concretos exercem seu poder simbolizante e energizante àquele que necessita e que trabalha com essas vibrações, mas há uma espiritualidade interior tão pulsante que sinto quase tudo como obsoleto. E não é tão bom assim como parece: de um ponto posso enxergar como um modo outro de espiritualização; porém, de outro modo, parece também me distanciar da necessidade da ritualística, do encontro, das orações prontas, do terreiro. No fim, a única coisa que fica é o ponto cantado — esse, sim, não me vejo perdendo de vista, acho fundamental. O corpo presente, a mente vibrante e um ponto cantado: o su...

A ANGÚSTIA DE UM PROPÓSITO

 Propósito... Parece que todas as pessoas ousaram focar, têm um. Não acho que eu seja um grande expert nessa palavras, e embora eu adore as palavras, também não me sinto expert nelas, mas gosto de pensar com as palavras, encontrar palavras, mas, gosto ainda mais de ser encontrado por elas e, quando não encontro e também não sou encontrado, gosto de inventar as palavras que possam caber nesse hiato. Há alguns meses foi invadido por essa palavra. Propósito. E é um pouco angustiante porque a contemporaneidade tem gastado algumas palavras, até punido algumas palavras porque mais a transformaram em coisas, do que mergulharam em seu sentido. Eu gosto das palavras, mas de algumas eu desgosto, como essa... propósito... mas ocorre que, ela tem me capturado, talvez porque alguma coisa precisa me capturar de uma vez por todas, ou, vou me sentir sempre muitos em uma pessoa só sem me sentir alguém. Na verdade, eu me sinto alguém, mas, não tenho certeza se gosto tanto, porque as faltas que sinto...