Espiritualidade em travessia: notas sobre uma presença desejante, o desapego dos ritos e a angústia de me permitir a experiência da contestação
Cada vez mais sinto que a espiritualidade à qual tenho chegado em meu entendimento precisa cada vez menos de coisas e cada vez mais de uma verdade da presença desejante no exercício espiritual. Vejo-me desapegado das coisas, das velas, das imagens, das guias, dos elementos concretos, do patuá, do congá… É como se tudo, tudo, tudo pudesse ser realizado e acessado pela mente.
É claro que os elementos concretos exercem seu poder simbolizante e energizante àquele que necessita e que trabalha com essas vibrações, mas há uma espiritualidade interior tão pulsante que sinto quase tudo como obsoleto. E não é tão bom assim como parece: de um ponto posso enxergar como um modo outro de espiritualização; porém, de outro modo, parece também me distanciar da necessidade da ritualística, do encontro, das orações prontas, do terreiro.
No fim, a única coisa que fica é o ponto cantado — esse, sim, não me vejo perdendo de vista, acho fundamental. O corpo presente, a mente vibrante e um ponto cantado: o suficiente para o trabalho, o acesso, o serviço…
Também me vejo, como posso dizer, não perdendo a fé, mas crendo muito mais nas energias do que nas personalizações e, com isso, tenho sentido que não se faz necessário incorporar — vibrar é o suficiente. Às vezes — quase sempre, até — nem creio na minha própria incorporação, senão na incorporação de mim mesmo na figura de um outro, um alter ego.
É estranho, porque sinto meu corpo diferente, mas quem sabe a mente constrói tudo isso e molda o corpo, a temperatura, o gesto, a performance?
Sinto que não chegaria a ser ateu, mas há uma espécie de fé agnóstica, se é que posso descrever assim… Eu sinto a espiritualidade em uma totalidade tamanha que quase tudo me parece desnecessário, sendo a única coisa realmente necessária o desejo honesto de se disponibilizar para o trabalho e, permitindo-se assim, ser um instrumento da caridade, do bem, da esperança.
Ainda que eu vá ao terreiro uma ou duas vezes por mês, quando vou quero verdadeira e inteiramente estar ali e, talvez, isso seja mais espirituoso do que pessoas que vão todos os dias alimentar sua sensação de serem poderosas.
Respeito meu tempo, minhas dinâmicas, minhas variáveis, meu humor. Mantenho um diálogo honesto com meus guias. E isto também é uma conversa com eles. Não temo ser questionador, temo não ter mais o que perguntar. Não me envergonho de me sentir assim, não me sinto mais ou menos evoluído, sinto que minha experiência tem sido esta, e está se fazendo, refazendo, tecendo, sem a pretensão de chegar a algum lugar. Talvez o melhor lugar seja mesmo o “nenhum”, porque amo a possibilidade de um acontecimento inacabado. Estamos em constructo…
Saravá!
22 de fevereiro de 2026
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